Imobiliário em 2026: O Fim da Euforia e o Início da Razão

Ontem, durante uma escritura, o comprador virou-se para mim e disse algo que me ficou a matutar na cabeça: "Sabe, sinto que finalmente não comprei uma casa com uma arma apontada à cabeça."
Esta frase resume perfeitamente o estado do mercado imobiliário em Portugal.
Se recuarmos a 2023 ou 2024, a sensação era de pânico: ou compravas na hora, ou perdias a oportunidade para sempre.
Hoje, o cenário mudou. Não, os preços não caíram a pique (como muitos profetas da desgraça anunciavam), mas o mercado respirou fundo.
Se estás a pensar comprar ou vender este ano, eis o que a realidade das ruas me diz todos os dias.
1. O Tempo de Decisão Aumentou (E isso é bom)
Lembras-te quando um apartamento em Lisboa ou no Porto recebia cinco propostas no dia em que entrava no Idealista? Isso é passado.
Em 2026, estamos a assistir ao regresso da negociação.
O Comprador: Visita o imóvel duas, às vezes três vezes. Faz contas à taxa de esforço. Compara.
O Vendedor: Percebeu que já não dita as regras sozinho. Um imóvel "fora de preço" fica meses "queimado" no mercado.
A minha opinião: Estamos num mercado mais saudável. O FOMO (Fear Of Missing Out) desapareceu. Quem compra agora, compra com convicção, não por medo.
2. Juros: A Nova Normalidade Aceite
Passámos os últimos anos obcecados com a Euribor. Em 2026, a "paz armada" instalou-se. As taxas não voltaram a zero (nem vão voltar), mas estabilizaram num patamar que permite planeamento familiar.
O que mudou foi a mentalidade. O português deixou de olhar para o crédito habitação como um direito adquirido de "dinheiro barato" e passou a encará-lo com realismo financeiro. Os bancos continuam rigorosos, o que, ironicamente, protege o mercado de uma bolha de incumprimento.
3. A Fuga para as "Cidades Satélite" Consolidou-se
Se há tendência clara em 2026, é que a periferia deixou de ser um "plano B".
Com os centros das grandes cidades transformados em "boutiques" de luxo ou alojamento local (mesmo com as restrições), a classe média portuguesa moveu-se. Cidades como Setúbal, Santarém, Braga ou Aveiro já não são apenas dormitórios; criaram ecossistemas próprios.
O mercado mudou: Hoje, vender um T3 a 40 minutos de Lisboa já não se foca na "facilidade de ir para a capital", mas na "qualidade de vida que se tem lá".
O teletrabalho híbrido, que em 2026 já é a norma estabelecida, validou esta mudança geográfica.
4. A Construção Nova é um Artigo de Luxo
Aqui reside a parte dura da nossa conversa.
A construção nova em 2026 continua escassa e cara. Mão de obra, materiais e burocracia mantiveram os custos lá em cima.
Para a maioria dos meus clientes, a solução realista tem sido o mercado de usados com potencial de renovação. O conceito de "comprar para remodelar" voltou em força, não por gosto pelo "bricolage", mas por necessidade matemática. É onde ainda se encontram os "bons negócios".
Em 2026, o mercado não é dos rápidos. É dos sensatos.